OUTRO OLHAR


A indiferença do mundo




Carlos Araújo


 - ARTE: LUCAS ARAÚJO - ARTE: LUCAS ARAÚJO


O som triste e arrebatador criado pela banda R.E.M., uma das maiores da história do rock, irrompe como trilha sonora da peça publicitária de uma campanha da ONG Médicos Sem Fronteiras. Em perfeita sintonia com a música, as imagens são fortes. Produzem o efeito de um tapa na cara, um soco no estômago, uma sacudida na indiferença do mundo.

Impossível não ficar parado por 2 minutos e 7 segundos, o tempo de duração do vídeo. As legendas informam que 28 mil profissionais da ONG Médicos sem Fronteiras salvam vidas no atendimento a vítimas de fome, catástrofes, guerras, epidemias. E isso é só o começo.

As imagens em cortes rápidos vão muito além. Os cenários são de regiões esquecidas da África. Crianças doentes, desnutridas, olhares perdidos, apelos, lágrimas, desamparo, expressões de dor. Os adultos traduzem o sofrimento em rostos emoldurados pela tristeza. E isso é só um aspecto da história.

Médicos, enfermeiros, auxiliares, viajam por rios, estradas rurais, trechos alagados. Chegam aos lugares mais distantes e miseráveis. Além das dificuldades do terreno, mobilizam-se pela coragem. Muitas dessas regiões são devastadas por conflitos regionais de governos e opositores corruptos, que disputam o legado do abandono. O risco de sequestro e morte é iminente para os profissionais de saúde. E essa é só mais uma parte do drama. O vídeo mostra que uma coisa é chegar às áreas arrasadas pelas catástrofes. Outra coisa é constatar que a tragédia é muito superior ao espírito de solidariedade. Tudo é precário e improvisado. Faltam tratamento de água e esgoto. Falta comida. Faltam materiais básicos para curativos. Faltam remédios. Falta consolo. E a sensação é dolorida demais.

Desolados com as carências e o sentimento de impotência diante do caos humanitário, médicos encostam-se em paredes, como se com esses gestos buscassem amparo para não cair, e os seus rostos se fecham em desespero. Pois eles também, os médicos, tornam-se vítimas da calamidade. E isso ainda não é tudo.

Este é um momento em que a publicidade, como numa compensação para a sua tradicional natureza elitista, entrega o seu poder de comunicação e a sua criatividade a serviço de uma causa humanitária de extrema urgência e importância. O espectador sabe que a tragédia existe e se multiplica em muitas regiões do planeta, mas essa não é a novidade. O novo em tudo isso é o incômodo que o invade no conforto do sofá com almofada. Há um mundo em pedaços lá fora e isso não é uma matéria natural como o ar, a água, o fogo. E essa é só uma parte do problema.

É hora de reconhecer que o mesmo mundo preocupado com o meio ambiente e o controle politicamente correto das relações sociais ignora as tragédias que fazem milhões de vítimas nas regiões mais desprezadas do planeta. É para fugir de lugares como aqueles exibidos no vídeo que muita gente arrisca a vida em travessias perigosas de oceanos, rios, pântanos. E são barradas por muros, cercas, leis, discursos carregados de ódio. E esse é só mais um capítulo dessa história terrível.

No ano passado, o Congresso dos EUA aprovou US$ 700 bilhões para gastos militares em 2018. Isso é mais do que a solicitação feita por Donald Trump. O valor total superou em 15% o aprovado em 2016, último ano do governo de Barack Obama, e em US$ 26 bilhões (ou 4%) o orçamento solicitado inicialmente por Trump. E a campanha do Médico Sem Fronteiras pede ao espectador a doação de apenas R$ 1 por dia ou R$ 30 ao mês para arcar com os custos do trabalho humanitário. Essa desproporção também é outra realidade digna de um soco no estômago.

Não, amigo leitor, não se sinta culpado. Aos governos do mundo, que têm todo o poder, cabe a responsabilidade de buscar a solução para as crises humanitárias. E habitualmente eles agem na contramão das nossas vontades, mesmo quando se dizem democráticos.

Certamente, ainda no conforto do sofá, você também fica incomodado quando assiste ao vídeo da ONG Médico Sem Fronteiras. O conteúdo agrega a força do cinema com a contundência de uma denúncia histórica que cumpre a função de subverter nossa indiferença. E isso é só o começo de uma longa história.


E se Superman estiver com a razão




Carlos Araújo
carlos.araújo@jornalcruzeiro.com.br
Decifrar porque a inteligência convive com a barbárie é um dos grandes desafios da natureza humana. Essas duas forças habitualmente entram em rota de colisão e, como num processo de fusão, duelam no mesmo espaço, na frequência dos mesmos acontecimentos, na fração de curtos períodos históricos relevantes para o planeta.

Por que isso acontece? Por que a inteligência não é capaz de eliminar toda a barbárie e, na contramão do raciocínio, por que a barbárie não detém a inteligência? Ou será que, para cúmulo do absurdo, uma e outra coisa são a mesma coisa?

A história é farta em exemplos de que nenhum conhecimento é capaz de deter a brutalidade. Desde a ascensão do nazismo, antes do início da Segunda Guerra Mundial, uma pergunta inquietante ronda os estudos sobre relações de poder: como explicar que a Alemanha, um país celebrado como referência filosófica, artística, científica, permitiu a dominação de um sistema de governo de extremo totalitarismo liderado por Adolf Hitler?

Questões de igual natureza podem ser feitas sobre acontecimentos em outras partes do mundo. Uma delas é como os EUA, modelo universal de democracia, foi capaz de lançar as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e como se dispôs a patrocinar as ditaduras latinoamericanas nas décadas de 1960 e 1970.

No campo das potências também é intrigante um fenômeno totalitário como o stalinismo no século passado e sua perpetuação nos governos que se seguiram, especialmente na era Vladimir Putin, se se considerar que esse país produziu gigantes da literatura como Tolstói e Dostoievski, ícones da dança como Rudolf Nureyev e o Balé Bolshoi, gênios do cinema como Serguei Eisenstein e Alexandr Sokurov.

Olhando para o nosso território, o Brasil, um país exaltado em prosa e verso por suas belezas naturais e sua riqueza mineral, sua alegria e sua paz, seu carnaval e sua música criativa, um país de gênios como Machado de Assis e Tom Jobim, Pelé e Garrincha, carrega em seu DNA a marca de mais de 300 anos de escravidão negra, tem uma das sociedades mais desiguais do mundo e sofre com a impotência de não ter solução para a brutalidade que assassina mulheres e crianças e transforma regiões do Rio e de Fortaleza em zonas de guerra.

Por mais que os processos históricos e de identidade de cada lugar apresentem versões para as origens e o desenvolvimento desses contrastes, é impossível não se indignar com os estragos colhidos nos rastros de passagem do bem e do mal. É como se houvesse um pacto de cumplicidade entre o sublime e o grotesco, entre a utopia e a realidade insuportável.

O homem que se orgulha de alcançar Marte por meio de robôs muitas vezes não consegue sair de casa com medo de assalto. Há muito tempo a humanidade se equilibra nos extremos: ou tudo é muito ruim ou tudo é muito bom; ou uma ação é sinônimo de sensibilidade, de um lado, ou é a tradução da intolerância, de outro.

Em meio a esses pensamentos, de repente alguém depara com um filme que oferece alguma interpretação para o dilema das manifestações de luz e de trevas na sociedade. O filme é "Kill Bill", de Quentin Tarantino. Em cena estão David Carradine e Uma Thurnan. Antes de um duelo de lutas marciais, os personagens conversam sobre histórias em quadrinhos e ele afirma que seu super-herói preferido é o Superman.

Carradine diz que o Superman já nasceu super-herói. Os concorrentes Batman e Homem-Aranha se disfarçam como pessoas comuns e precisam de uma roupa mágica para acionarem seus poderes. O Superman, ao contrário, acorda de manhã como super-herói e para se disfarçar incorpora um homem comum na figura do repórter Clark Kent. "Fraco, muito inseguro, covarde", descreve Carradine. Mais do que um disfarce, é assim que o Superman vê os humanos.

E se ele estiver com a razão, como explicar a capacidade humana de ser ao mesmo tempo sublime e grotesca? O trágico é que as coisas não mudam, como se cumprissem destinos. Recorrer à arte e à filosofia como forma de digerir essas aflições é uma tentativa de interpretar a realidade. Mas nada vai além disso. Não há nenhuma compensação para a fragilidade humana. Nem super-heróis.

Talvez o destino humano seja mesmo o sofrimento como castigo por crimes hediondos e inconfessáveis cometidos todos os dias por uma grande parte dos homens -- e permitidos pela outra parte.


Quase meia-noite, na padaria




Carlos Araujo
carlosaraujo@jornalcruzeiro.com.br
No interior, a padaria cumpre o papel do que seria uma praia no litoral. Ao menos como ponto de encontro. A desvantagem é que não há o sol, nem a areia, nem as ondas do mar. A vantagem fica por conta das delícias na forma de guloseimas, apesar do perigo da ingestão de calorias a mais. Ainda bem que as mulheres bonitas decoram o ambiente em todo lugar, seja na praia ou na padaria, e esse detalhe é uma inspiração para a poesia e um convite à vida. O que é diferente é a conversa: na praia os diálogos são soltos, enquanto na padaria assumem contornos de debate acalorado.

Veja os dois amigos que se cumprimentam próximo ao balcão de doces e salgados. Um deles se chama Ricardo e segura uma cesta de pão, queijo, coxinha, algumas frutas. O outro é Jorge, tem apenas a comanda na mão e está acompanhado de um amigo que se chama Paulo, que Ricardo não conhece. Feitas as apresentações, qual dos três tem novidade para contar? Quem se habilita é Jorge:

-- Vou voltar para Belo Horizonte -- ele diz.

Ricardo não se surpreende. Todos sabem que Jorge voltaria para a capital mineira a qualquer hora, após mais de trinta anos em Sorocaba. Agora ele está aposentado e pode curtir a vida plenamente, sem se preocupar com o estresse da profissão de advogado.

-- E você, o que anda fazendo? -- pergunta Jorge a Ricardo.

-- Escrevendo muito, como sempre -- responde Ricardo.

-- Ihhh!!! é escritor também -- lamenta Paulo, como se estivesse diante de dois sofredores, dois perdidos, dois renegados. Jorge, além da experiência nos tribunais, também escreve livros explorando temas que o encantam, como o futebol.

Ricardo, percebendo o tom de lamentação, elabora uma defesa:

-- Escrever, mais do que um prazer, é uma condenação. É como respirar, como cumprir um destino. Quem não tem talento para a bola ou os negócios, escreve. É como patinar no fim da linha. Não ganha dinheiro, mas se diverte com a imaginação.

-- Vocês se sentem felizes assim, não é? - sugere Paulo. - Então está ótimo.

-- Fazemos leituras do mundo - completa Ricardo. -- Nem sempre é a leitura correta, erramos muito, mas vale o risco.

Jorge pensa nos livros que terá que encaixotar na mudança para Belo Horizonte. Mais de trezentos volumes. Ricardo pensa nos livros que tem em casa e perde a conta. Paulo os vincula aos tempos modernos e chega a uma conclusão:

-- Vocês são baluartes de resistência: devoram livros impressos. Quem lê hoje recorre ao Kindle, à tela do smartphone. E muita gente não lê absolutamente nada.

Ricardo e Jorge aproveitam a deixa para falar das vantagens do livro impresso sobre as alternativas digitais.

Paulo confessa uma preocupação:

-- Como será o País com a geração que não lê nada?

Ricardo desconstrói o senso comum:

-- Ler não é garantia de virtude. Ler muitas vezes não melhora ninguém, mas piora, porque faz o sujeito perder a inocência. A história mostra vilões eruditos, criativos, sofisticados, e reserva a compensação com criaturas humildes, analfabetas, de grande dignidade. Hitler gostava de pintura e música clássica, e há moradores de rua que, mesmo sem terem nada, se ajudam uns aos outros nas noites geladas de inverno.

Paulo insiste na projeção de futuro:

-- Fico preocupado com os meus filhos. Que Brasil eles terão em dez, vinte, trinta anos? Sinto arrepios só de imaginar como será o futuro, o que seremos, se ainda seremos um país.

-- O Brasil será melhor do que é hoje se a democracia estiver garantida - intervém Jorge. -- O País não tem uma história de regimes democráticos que duram muito. Sempre há uma quebra com retrocesso e o sonho da democracia é interrompido.

Paulo insinua que não é bem assim. Jorge justifica:

-- A história do mundo dá exemplos de que só a democracia proporciona progresso e desenvolvimento. Vejam o Japão, a Alemanha, os EUA. Na Itália cai primeiro-ministro, sobe primeiro-ministro, mas o regime não muda. A Espanha e Portugal só começaram a se desenvolver de fato quando se livraram das ditaduras. A democracia é a janela aberta para o sol da liberdade.

Nesse instante, Ricardo se mantém em silêncio. Forjado nas desilusões de todas as utopias, nem mesmo o ideal democrático o convence de mais nada.

-- Não é mero acaso que democracia rima com utopia -- ele contradiz.

Agora se apressam nas despedidas. Hora de ir pra casa. É quase meia-noite e a padaria vai fechar. Amanhã tem mais.


Receita de fingimento




Carlos Araújo
carlos.araujo@jornalcruzeiro.com.br
Fingir que chove lá fora e eu não tenho nada a ver com isso porque não vou sair de casa nesta sexta-feira de julho. 
Fingir que a roda da história gira em torno do meu umbigo e tudo o que me interessa neste mundo é só o que me faz feliz.

Fingir que não existe dor nem amargura porque o meu conhecimento de mundo se limita ao privilégio de almejar o poder, ser ambicioso e dominar todos que cruzam o meu caminho.

Fingir que vivo num universo em que tudo está resolvido e não há nada mais a ser feito, complementado ou transformado.

Fingir que o dia e a noite foram feitos para mim, só para mim, e direcionar para o meu ego toda a luz possível, sem me importar se o universo ao meu redor vive no escuro.

Fingir que há paz, que as pessoas se amam, que o ódio vicejante das redes sociais é só uma ilusão de ótica, sem correspondência na vida real.

Fingir que as instituições funcionam, sem se importar com o fato de que muitos se decepcionam com elas, que tantos nem acreditam nelas.

Fingir que vivemos no país do futuro e que não nos escandalizamos com a estranha constatação de que o futuro nunca chega, como se jamais existisse.

Fingir que a mulher vestida de azul no semáforo deu bola pra mim só porque nossos olhares se cruzaram e ela sorriu, sem levar em conta a possibilidade de ela tão somente estar rindo da minha cara.

Fingir que temos algum poder nesse mundo dirigido por poderosos de todos os matizes e categorias.

Fingir que sou um sucesso porque tenho o privilégio de viajar ao exterior uma vez por ano e preencher todo o meu tempo com a renovação anual desta meta, como se a existência fosse um passeio e o meu destino se resumisse à condição de ser turista em tempo integral.

Fingir que estou em paz com os mandamentos divinos toda vez que, no conforto do meu carro com ar condicionado, dou uma moeda no semáforo para uma criatura que se apresenta com uma mensagem escrita em papelão: "Estou com forme. Pode ajudar?"

Fingir que os acontecimentos nos centros de poder não me atingem porque cumpro com os meus deveres de cidadão e não tenho pendências de nenhuma ordem.

Fingir que os tiroteios nas favelas não ameaçam a minha segurança porque ando em carro blindado e moro em condomínio de luxo e, portanto, tenho a certeza (perdoem a presunção) de que curto a tranquilidade da paz dos trópicos.

Fingir que não há buracos nas ruas, que não há filas nos hospitais, que não há escolas sem aulas e sem professores, que não há medo de sair à rua, que não há queda na renda familiar.

Fingir que as estatísticas negativas estão erradas e só ganham publicidade por causa de intrigas da oposição.

Fingir que eu ensino a lição de vida, que você aprende a viver e que mesmo assim está tudo certo.

Fingir que sou politicamente correto e que atingi o nirvana com todas as minhas certezas.

Fingir que os meus discursos indignados podem significar alguma coisa transformadora, sem jamais duvidar da minha capacidade de ter cometido mil erros nos espasmos da minha mente.

Fingir que vivemos no paraíso, que não há esgoto a céu aberto e que todas as crianças nascem com uma rede de proteção digna de aplauso.

Fingir que nenhuma mulher será assassinada hoje, que nenhuma criatura se meterá em corrupção, que nenhuma guerra abalará os alicerces da paz.

Fingir que a tecnologia pode resolver todos os problemas do homem e inaugurar uma nova espécie de felicidade, a felicidade tecnológica.

Fingir que não precisamos uns dos outros, que basta ter dinheiro e poder para alcançar o plano da perfeição e que tudo o mais é discurso perdido, ultrapassado.

Fingir e continuar fingindo, porque essa é a dinâmica das coisas nesse mundo, porque essa talvez seja a única válvula de escape da sociedade moderna.

Fingir, fingir, fingir, em perfeita sintonia com o grande e vasto fingimento coletivo deste mundo estilhaçado pela injustiça e a indiferença.