SOROCABA E REGIÃO

Como se prevenir para evitar o estupro


André Moraes
 
andre.moraes@jcruzeiro.com.br
 
Certa manhã, Maria Aparecida saiu de sua casa, sozinha, e foi até o ponto de ônibus mais próximo, que fica a dois quarteirões de onde mora. Ela estava pensando no dia corrido que teria pela frente, com muito trabalho, e não estava atenta a nada do que acontecia ao seu redor. Após cerca de dez minutos de espera pelo ônibus, ela foi surpreendida por um homem encapuzado, que a segurou forte pelo braço e, sob ameaças, disse para ela não gritar, pois senão isso poderia lhe custar a vida. Quieta e com muito medo, ela foi levada pelo desconhecido a um terreno baldio, onde foi violentada sexualmente.
 
Essa é uma história fictícia, porém representa a realidade de muitas mulheres que acabam sendo marcadas por sua vida toda, por conta desse tipo de violência, que preocupa autoridades que trabalham na defesa dessas vítimas em Sorocaba.
 
O estupro acomete uma pessoa, seja ela criança, adolescente ou adulta, a cada dois dias no município, conforme dados da Delegacia da Defesa da Mulher (DDM), já divulgados pelo Cruzeiro do Sul no último dia 5, que mostrou que 97 estupros aconteceram entre janeiro e maio de 2013. Mas se estendermos essas estatísticas para mais 22 cidades da região, esse número chega a 236 pessoas abusadas nesse mesmo período, conforme um levantamento feito com base nos atendimentos do Núcleo de Atendimento Imediato às Vítimas de Violência Sexual do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), que existe na cidade desde 2002.
 
Em Sorocaba, a delegada da DDM, Ana Luíza Salomone revela que os estupros acontecem em todas as regiões da cidade, não havendo uma incidência maior em algum determinado bairro. "Os locais em que ocorrem os crimes são bem salpicados pela cidade."
 
Essas estatísticas intrigam os especialistas que trabalham na área de atendimento às vítimas, que, por meio das conversas e do colhimento de depoimentos, acabam encontrando formas de ajudar as outras mulheres - que representam a grande maioria das vítimas, chegando a 90% dos casos - a evitarem de ser abordadas pelos agressores.
 
As dicas de segurança podem até ser já de conhecimento das mulheres sorocabanas, porém a médica Rosana Maria Paiva dos Anjos, que é coordenadora do Núcleo de Atendimento Imediato às Vítimas de Violência Sexual do CHS, destaca que são muito importantes para dificultar a ação dos estupradores. Segundo ela, as mulheres devem evitar andar sempre sozinhas e distraídas, pois assim elas se tornam os principais alvos dos agressores, que são muito observadores. "Tenha sempre em mãos qualquer coisa que possa ameaçar ou machucar o agressor, como um guarda-chuva, por exemplo, porque assim a mulher consegue distanciar o agressor. Ele procura a pessoa que acha que nada vai acontecer a ela, que esteja mais distraída", relata Rosana.
 
Outra questão destacada pela médica seria a rotina que a mulher tem no seu dia a dia, assim como a história relatada no início dessa reportagem, que poderia ser algo já analisado pelo criminoso. Por ele ser muito observador, Rosana afirma que ele fica atento a uma mulher que toma sempre o mesmo caminho para trabalhar, por exemplo, e que esteja sempre desacompanhada. "Tudo que é rotina facilita a questão do agressor", acrescenta. Com isso, o mais indicado a se fazer seria escolher rotas alternativas em alguns dias da semana, pois assim a mulher conseguiria despistar o estuprador.
 
A psicóloga do Centro de Referência da Mulher (Cerem) - que atende mulheres que sofrem qualquer tipo de violência -, Bianca Bonassi Pichiguelli, concorda com Rosana, na parte de o agressor ser bastante observador, e, baseada nos atendimentos que já fez às vítimas, ela percebe que o agressor já esteve observando o seu alvo por algum tempo antes do ataque. "Geralmente, o agressor não vê a vítima pela primeira vez e a ataca, mas sim ele percebe que ela sai de um lugar, entra no ônibus, e sempre distraída. Se eles perceberem que a mulher está sempre com alguém, sempre conversando com alguém ou andando em grupo, ele fica com um pouco mais de receio", considera.
 
 
Lugares movimentados
 
 
Apesar de a maioria dos casos de estupro que vitimam mulheres adultas acontecer com a abordagem em lugares escuros e vazios, a psicóloga do Cerem afirma que não se pode esquecer que existem ocorrências em que os agressores não se intimidam com a luz do dia e de lugares movimentados para encontrar suas vítimas. Segundo ela, certa vez chegou um caso no Cerem de uma mulher que estava andando pelo Centro da cidade, na região da praça central Coronel Fernando Prestes, quando por volta do meio-dia um indivíduo chegou a seu lado e disse para fingir que os dois eram um casal, a ameaçando de morte caso ela fizesse alguma coisa para chamar a atenção da multidão. A mulher ficou paralisada de medo, conforme conta Bianca, e não gritou, somente deixou ser levada pelo agressor. "Então ele foi a levando até o carro e assim a levou para um local deserto, onde ocorreu o estupro", relata a psicóloga.
 
Com isso, ela ressalta que as mulheres devem ficar atentas em todos os lugares. "Essas mulheres que passaram por aqui, que foram vítimas, tinham o costume de andar muito sozinhas. Nunca atendi nenhum caso em que a mulher estava acompanha quando foi abordada. Infelizmente, apesar de ser difícil, tenho que pedir para as mulheres sempre andarem com alguma companhia e mais atentas, porque os agressores se aproveitam da distração. Teve um caso de uma mulher que até falou que era muito distraída, sempre andava sozinha, nunca se atentou à sua bolsa, ou seja, sempre foi um alvo fácil, tanto para ladrão, quanto para o estuprador", alerta Bianca.