ARTIGOS

As vantagens da sucata

Sandro Donnini Mancini

No último dia 12 de setembro abordei nesse espaço números do governo federal e do Sindicato do Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não Ferrosa do Estado de São Paulo para contabilizar que 18% de toda a matéria-prima que movimenta a siderurgia (ramo da metalurgia relacionado aos produtos de ferro e aço) é sucata. Foi colocado também que a siderurgia representa cerca de 95% de toda metalurgia, ramo que congrega não só os produtos de ferro e aço, mas também os de zinco, titânio, vanádio, níquel, chumbo, cobre e alumínio, entre outros. Nesses, a parcela de matéria-prima secundária também é grande e prova disso é o alto preço que a sucata de alumínio e cobre, por exemplo, atingem no mercado.

Entre outros tópicos, foi abordado que a reciclagem da sucata em novos produtos de ferro e aço é vantajosa para o Brasil, mesmo se considerar a grande quantidade de minério de ferro (base para esses produtos) existente no país e que é, em sua grande maioria, exportada. Isso porque para se obter um produto metálico a partir do minério de ferro (óxido de ferro) há que se fazer reagir em altas temperaturas com carvão que, em linhas gerais, retira o oxigênio e isola o ferro.

Esse processo ocorre basicamente em duas etapas. A primeira tem lugar em gigantescas estruturas chamadas altos-fornos, que podem chegar a 100 metros de altura. Com um gasto energético bastante grande, pois é necessário que certas regiões do forno cheguem a mais de 2.000 graus, o processo gera muitos gases, materiais particulados, resíduos sólidos (chamado de escória) e o ferro-gusa na forma líquida. As principais matérias-primas de um alto forno são o minério de ferro, calcário (ajuda na formação de escória) e carvão. O ferro-gusa ainda não é um produto final, geralmente ele é transportado líquido para um outro setor dentro da siderúrgica, chamado aciaria, na segunda etapa. Na aciaria a composição do material será regulada de acordo com as especificações do cliente, dando origem a, principalmente, aço. O aço é um material ferroso com pequenas quantidades de carbono (advindo geralmente do carvão) e outros elementos, que dão origem a um dos materiais mais versáteis e robustos que existem, cujo consumo representa cerca de 90% de todos os metais consumidos no mundo.

E para se produzir aço a partir de sucata? Em linhas gerais é só derreter a sucata (perto dos mesmos 2.000 graus) e acertar a composição, pois cada produto descartado pode ter diferentes composições.

Pela simplicidade da explicação, pode-se suspeitar que a reciclagem é bem mais vantajosa, em relação a produção do mesmo material a partir de minério de ferro, considerando-se o consumo de matéria-prima, geração de resíduos sólidos e efluentes gasosos, necessidade de água (geralmente para refrigeração, lavagem e tratamento térmico) e gasto energético.
As suspeitas estão corretas. Só no último quesito, o gasto energético, calcula-se que para se fabricar um quilo de metal a partir da sucata sejam necessários somente 2/3 de toda energia que é consumida na fabricação de um quilo de aço a partir do minério. Outros números bastante interessantes dão conta que a reciclagem da sucata produz somente 3% do material particulado e 30% dos resíduos sólidos que são produzidos com a produção de aço a partir do minério, sem contar ganhos bastante interessantes em emissões gasosas de compostos nitrogenados e sulfurados, bem como efluentes líquidos mais simples de serem tratados.
Soma-se a esses fatos a dependência nacional com relação ao carvão metalúrgico, tão necessário quanto o minério de ferro para a produção do aço. Para se ter ideia, 6,6 % de toda a energia utilizada no Brasil em 2012 (contando petróleo, álcool, hidrelétricas etc.) foi consumida pelo setor siderúrgico, sendo que quase a metade disso, 2,9%, é referente ao carvão mineral, importado. Deve ser acrescentado ainda o fato que 1,3% de toda energia brasileira vem do carvão vegetal (feito a partir de madeira, não necessariamente de reflorestamento) utilizado para a siderurgia (dados completos no Balanço Energético Nacional de 2013 - www.mme.gov.br).
Assim, reciclar a sucata de ferro e aço tem vantagens econômicas e ambientais notáveis. O exemplo da siderurgia não é único, números semelhantes podem ser obtidos com outros materiais, metálicos ou não. Porém, dada sua pujança na economia brasileira, os valores relacionados à siderurgia realmente impressionam.

Sandro Donnini Mancini (www.sorocaba.unesp.br/professor/mancini; mancini@sorocaba.unesp.br) é professor da Unesp de Sorocaba (www.sorocaba.unesp.br) para os cursos de graduação em Engenharia Ambiental, Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia de Materiais e Mestrado em Engenharia Civil e Ambiental. Escreve a cada duas semanas, às terças-feiras, neste espaço.