CASA & ACABAMENTO

Móveis trazem histórias que merecem resgate



Leila Gapy
[email protected]
Dizem por aí que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Talvez seja verdade. Mas na vida de Simone Gonçalves, só se for de "médica de móveis". É que ela é restauradora. Uma loucura, como ela chama, que a tomou há mais de uma década, quando deixou a publicidade e deu ouvidos ao coração. "Restaurar sempre foi um hobby. Sempre fui curiosa. Gostava disso há muito tempo. Tive antiquário, loja de móveis e restaurava. Até que decidi "só" restaurar, o que já me preenche o tempo todo e inteira. Me realizo debruçada em um móvel", explica ela, quase sem dar pausa, evidenciando a paixão pela técnica.
Simone é de São Paulo, e foi lá que procurou por uma professora de restauro, dona Soraia Vieira, para aperfeiçoar-se. Aprendeu a limpar, alcançar o formato original, pintar, transformar. Descobriu os vários tipos de madeira, inclusive, as que não existem mais ou não existem no Brasil. Viu-se marceneira, serralheira, tapeceira, empalhadeira. "Só existe um jeito de aprender. É unir ensino, estudo e prática. Colei em vários profissionais e aprendi uma vida. Os móveis têm origem e compõem histórias de família. Sentimentos, valores. Existe um respeito ao restaurá-lo", completa ela, que reside em Sorocaba há 11 anos.
Foi por isso que optou por uma casa onde também coubesse seu ateliê. Uma garagem aos fundos, ampla e aberta, onde ela espalha encomendas e sua oficina. "E a cada peça que chega, um desafio. Por mais que conheçamos o ofício, cada móvel é único, requer cuidado. É exclusivo, tem sua memória", explica, debruçada numa cama de metal, recém-chegada. "Veja, é antiga. Não sei dizer quantos anos, mas muitas e muitas décadas. É parafusada, tem detalhes. Demorei um dia para desmontá-la com cuidado", avisa.
E os cases, como ela chama, não param por ai. Há mesa, bancos e cadeiras que comporão um rancho e misturam pintura em branco com madeira original. Há as portas de antigo armário da cozinha, que ela restaurará para a nova propriedade. "Fiz um espelho recentemente de pinho de riga, uma madeira estrangeira e que está cada vez mais rara. Uma janela com essa madeira foi transformada e tem muito valor. Ela tem veias paralelas, com cores diferentes. É linda demais", afirma.
Dessa forma ela percorre o galpão e mostra portas de um guarda-roupas com mais de 60 anos e que pertence a uma família tradicional da cidade. "Soube que o patriarca, já falecido, valorizava a madeira. Eles têm muitos móveis com valor afetivo", diz. É por isso também que cada peça tem um preço e um prazo determinado. O mínimo estipulado para entrega é de 50 dias úteis. "Já o valor depende da avaliação do que farei. Há peças, como essa mesa, manchada, com marcas de batidas. Isso é comum, mas é preciso lixá-la. As cadeiras são as que mais dão trabalho, pois a limpeza é manual", detalha.
Tudo isso sem contar, diz ela, que nos últimos cinco anos, a procura aumentou e o restauro se resignificou no mercado. Segundo Simone, antes, as pessoas que lhe procuravam, às vezes, tratavam o móvel como um problema. A busca por transformação era constante. "Havia a ideia de tapar com tinta o feio, o tempo, o envelhecimento", recorda. Atualmente, afirma, o velho transformou-se em antigo. E as pessoas perceberam que além de não existirem mais móveis resistentes como de antigamente, também passaram a valorizar a afetividade e história familiar, a relação com o móvel.
"Hoje percebemos que as pessoas têm orgulho em dizer, essa cômoda foi da minha avó. Essas cadeiras, do casamento dos meus pais", emenda. Até por isso, ela assume, geralmente o valor do restauro é igual ou maior que o valor de um móvel novo.
"Novo, comparado aos móveis populares. Visto que móveis antigos são de madeira maciça e duram uma vida. Porém, diante do trabalho que dão, confesso que às vezes acho os preços dos restauros baratos. Mas trata-se de paixão versus valor afetivo. No final, equivale, pois sinto imenso prazer em fazer. Mais ainda em devolver a peça e surpreender o cliente. Agradá-lo. E saber que poderá usá-lo por mais vidas", define.