Nas lentes do conhecimento

A fragilidade da civilização


O ano de 2015 foi repleto de imagens fortes para os brasileiros diante de tantas movimentações sociais em um contexto caótico que demonstrou a fragilidade da civilização. Estamos quase na metade de 2018 e ainda não aprendemos com estas imagens, ainda não procuramos um modo de coexistir. 
 
Uma imagem internacional se fez presente no ano de 2015 do brasileiro, a foto tirada por Nilufer Demir (fotografa turca) com sua câmera profissional, no início de setembro, retratando Aylan Kurdi, um menino Sírio, de 3 anos, deitado em praias turcas já sem vida.
 
Ele, junto com a família, fazia parte de uma massa de imigrantes que fogem das guerras do Oriente Médio em busca de uma vida melhor no Ocidente, na nossa civilização. Mas não seriamos nós os responsáveis de partes dos problemas vivenciados por eles na imposição do nosso modelo de vida?
 
Esta foto, de um anjo deitado no colchão de areia acariciado pelas ondas do mar, tornou-se símbolo da crise migratória de nosso planeta, de pessoas que são forçadas a saírem de seus lugares sagrados: os seus lares. Uma foto de um acontecimento brutal, como a morte de uma criança, também possui uma beleza estranha a todos nós, uma arte que não queremos expor na nossa galeria HUMANIDADE.
 
Como disse Demir à CNN: “A fotografia é a única forma que eu tenho de expressar o grito do seu corpo silencioso”. A arte da fotografia está à disposição da humanidade para eternizar as suas lutas, derrotas e vitórias.
 
No penúltimo dia de 2015, uma nova história vivenciada repetidamente por um povo, de uma cultura quase extinta por nós (ocidentais), ocorreu, e uma nova imagem nasceu. O repórter cinematográfico, Gabriel Felipe (brasileiro) com seu smartphone registou a cena de um crime.
 


A ausência de uma infância indígena  - Gabriel Felipe/RBSTV A ausência de uma infância indígena - Gabriel Felipe/RBSTV

 
Uma criança indígena de 2 anos, Vitor Pinto, brasileiro, do povo Kaingang, é brutalmente assassinado na cidade de Imbituba-SC. Sua família estava na cidade para vender sua arte, trabalho que exercem para sobreviver diante das imposições da nossa sociedade.
 
Estavam na rodoviária, lugar movimentado para garantir segurança à um povo tão perseguido; sim, pode lhe soar estranho, mas os índios ainda são perseguidos, caçados.
 
O menino estava no colo da mãe, em seu momento tão natural, recebendo carinho, sendo amamentado, quando um homem se aproxima, faz um aparente gesto de carinho na cabeça do garoto e com uma navalha corta a sua garganta. Em pouco tempo, nosso jovem brasileiro nativo, com uma cultura única e rica, encontra-se sem vida. Seu assassino vai embora andando, quase que retratando um momento natural ao nosso cotidiano.
 
Na fotografia simples e fiel ao momento presente do fotografo, como deve ser fotojornalismo, percebemos pingos de sangue no chão, e seus poucos pertences que ainda estão no local. A imagem não retrata o ambiente/cultura de um índio, mas da pobreza que vive grande parte dos brasileiros. Retrata que nossos nativos estão sendo obrigados a saírem de suas terras para viver esta pobreza, eles são imigrantes em sua própria terra.
 
A ausência de um corpo na foto pode aparentemente explicar o porquê este acontecimento não ganhou as proporções, que causaram nas redes sociais e na mídia em geral, a foto do menino Sírio. Seria a sociedade contemporânea impulsionada por um espetáculo mórbido?
 
Outro ponto que poderia explicar este fenômeno, é a utilização do equipamento profissional na primeira foto e na segunda um simples aparelho celular. A ferramenta é tão importante ao profissional? 
 
Seria nossa civilização tão avançada, já que não conseguimos perceber os povos indígenas como seres humanos ou até mesmo figuras importantes e representativas de nossa sociedade?
 
Que liberdade tanto defendemos se não conseguimos conviver dentro deste complexo multicultural que é o nosso planeta? Que liberdade tanto defendemos se não um pensamento único do que é humanidade? ATÉ QUE DIA VOCÊ VAI ESTAR DENTRO DESTE PADRÃO COM SEGURANÇA?