Blog do Simões

TBC - a memória do moderno teatro brasileiro em luta


TBC ¿ a memória do moderno teatro brasileiro em luta


Quando perdemos a memória cultural corremos o risco de estarmos sempre "descobrindo a pólvora". Isto é, de estarmos inventando o "novo" (que já foi inventado faz muito tempo). Quando isso acontece perdermos as referências e paradigmas da cultura. Segundo Thomas Kuhn, os "paradigmas são as realizações cientificas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência". Por exemplo, a teoria heliocêntrica de Copérnico, durou séculos até ser substituída por outro paradigma. É da luta entre modelos estabelecidos e não estabelecidos que avançam as ciências. Mesmo não sendo o teatro uma ciência no "stricto sensu" é este mecanismo que pode explicar grande parte dos movimentos cênicos revolucionários que formam o panorama histórico das artes.

Assim se numa dada situação a memoria cultural é apagada por uma ação externa, diferente de outra ação cultural, por exemplo, por um ato político ou por falta de uma política financeira de sustentação das artes, não ocorre a quebra do paradigma e, sim, o desaparecimento da memória. A perda é irreparável. Por exemplo, o caso da Oficina Cultural Grande Otelo. A Oficina foi suprimida como espaço físico e locus da criação, encontro e mobilização dos artistas da cidade de Sorocaba e Região. Morte do espaço e da memória cultural. Não é à toa que nos discursos pela volta do espaço, na maioria das vezes, seja permeado por lembranças. Por uma força de algo que foi vivido.

Em São Paulo o TBC (localizado no Bairro do Bexiga, São Paulo) passa por situação semelhante. O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) foi criado em 1948, pelo empresário Franco Zampari responsável por parte do moderno teatro brasileiro. Nesse teatro foram encenadas Entre Quatro Paredes (Jean-Paul Sartre); Um Pedido de Casamento (Anton Tchekhov); A Importância de Ser Prudente (Oscar Wilde); Pega Fogo (Jules Renard), dentre outras. É neste teatro que estreou Antunes Filhoe brilharam artistas como Cacilda Becker, Maria Della Costa; Paulo Autran, Sergio Cardoso, Nidia Lícia, entre outros que fizeram parte da constituição daquilo que se denomina o moderno teatro brasileiro.

Segundo o Alberto Guzik "O TBC erige um modelo de ação. Modelo passível de ser discutido, valorizado, negado. Tudo isso tem sido feito incessantemente desde 1964. Mas o tempo decorrido começa a derreter as paixões do debate e permite a emersão da verdadeira face dessa casa lendária. O feito de seu repertório eclético até a extravagância é uma experiência irrepetida no Brasil, nessa intensidade. Em dezesseis anos, foram levadas no palco da Major Diogo cento e quarenta e quatro obras, vistas por quase dois milhões de pessoas. Para isso, como diz Paulo Autran, como diz Elizabeth Henreid, como dizem todos os atores saídos das fileiras do TBC, foi necessário muito trabalho".

O tempo e as administrações públicas e privadas foram cruéis com este espaço/memória. Ascensão e queda do TBC. Afundado em dividas o espaço (fechado desde 2007) parecia sucumbir e desaparecer definitivamente, até o momento que a classe artística se organizou e, em abril de 2018, foi criada a Associação dos Amigos do Teatro Brasileiro de Comédia e do Teatro Brasileiro, que tem entre seus membros - fundadores atores como Sérgio Mamberti e Denise Fraga, além de apoiadores como os atores/atrizes Celso Frateschi, Nathalia Thimberg, Marcos Caruso, e Fernanda Montenegro, entre dezenas de outros, e diretores como Zé Celso Martinez Corrêa e Amir Haddad, além de pesquisadores e produtores de teatro de várias partes do país.

A primeira ação da Associação é a organização de um Seminário TBC ¿ HISTÓRIA E PERMANÊNCIA DE UM MARCO DO TEATRO MODERNO BRASILEIRO, dias 23 e 30 de maio, realizado na Biblioteca Mario de Andrade. Não se pode perder o TBC. Seria o mesmo que apagar a memória do nascimento do moderno teatro brasileiro.

Para fazer do teatro a sua profissão o artista deve certamente valorizar e preservar a memória e os espaços da cena. Conhecer os profissionais que abriram a duras penas espaços para que o teatro brasileiro avançasse. Este seminário é uma oportunidade para que as novas gerações de artistas possam conhecer este momento do teatro brasileiro. Afinal a luta em muitos sentidos somente começou. Resistir, resistir, resistir.


SERVIÇO:
Seminário TBC ¿ HISTÓRIA E PERMANÊNCIA DE UM MARCO DO TEATRO MODERNO BRASILEIRO
Auditório da Biblioteca Mário de Andrade
Endereço: Rua da Consolação, 94, Centro.
Telefone: 3775-0002
Datas: quartas-feiras dias 23 e 30 de maio de 2018
Horário: 16h
Duração: 150 minutos
Lotação: 170 lugares. Entrada franca (grátis)