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Manhã de desabafo no São Bento


"Nós chegamos muito além de onde deveríamos ter chegado e vamos continuar, porque aqui tem competência e trabalho." A frase foi apenas uma em meio a tantas outras declarações de efeito do presidente do São Bento, Márcio Rogério Dias, em entrevista convocada na manhã de ontem, na sala de imprensa do Estádio Municipal Walter Ribeiro (CIC). O mandatário chamou os jornalistas para um pronunciamento -- em tom de desabafo -- sobre vários tópicos que envolvem o clube atualmente, no momento mais turbulento vivido nesta temporada. Em público, foi a primeira vez que ele tratou da saída de Paulo Roberto Santos.

Dias falou, ininterruptamente, por mais de 40 minutos. Começou enaltecendo o trabalho da diretoria. Segundo ele, salvo as entradas do diretor de futebol, José Urban Filho, e do diretor-secretário, José Abrão Filho, o quadro é o mesmo desde 2011 e, nas palavras dele, teve a responsabilidade de colocar o São Bento no patamar de hoje, entre os 40 melhores clubes do País. "No futebol, pessoas sérias e honestas se afastam e depois ninguém sabe o porquê", afirmou ele, que tem sofrido críticas por parte da torcida desde que decidiu, junto da diretoria, pela troca do comando técnico.

A insatisfação da arquibancada, de acordo com o presidente, resultou numa agressão sofrida por ele no último sábado (14), após a derrota por 2 a 0 para a Ponte Preta. "Eu nunca fugi da responsabilidade, mas não merecia uma agressão, com o meu filho, uma criança, do lado. Como fica minha família? Foi uma cena horrível que espero que meu filho não leve para frente", contou. "Eu peço à torcida de verdade um voto de confiança ao trabalho da diretoria, pois a força de dentro é bem maior do que os ventos contra. Espero que o agressor tenha a humildade de vir pedir desculpas no final do campeonato", acrescentou.

Em relação ao fim do ciclo Paulo Roberto Santos, com 34 meses de duração consecutiva, Dias falou que o "desgaste" com o tempo foi fator determinante. Apesar de ter classificado o ex-treinador do clube como um dos maiores que o São Bento já teve, assinalou que "a vida estava insuportável". Conforme o apurado há quase um mês, após o duelo com o Londrina, primeira derrota do Azulão na Série B, pela 12ª rodada da competição, houve discussão acalorada nos vestiários do CIC, incluindo confronto físico entre Paulo e o presidente. "Se eu fosse um ditador, poderia ter mandado ele embora por justa causa. Mas tenho muito respeito pelo Paulo, tanto que ainda continuo pagando a moradia dele."

O Cruzeiro do Sul procurou Paulo Roberto Santos para saber sua versão sobre o fato. Segundo ele, "tudo que está sendo custeado é o que estava em contrato". "No contrato, que iria até 30 de novembro, tinha o valor de multa estipulado e também o auxílio-moradia até o final. Não vejo nenhum favor nisso, existia essa cláusula no contrato. Da mesma forma que, ao rescindir o contrato, eles me pediram se eu podia fazer algo para ajudar e eu aceitei dividir o valor da rescisão em cinco vezes. Eu não era obrigado a aceitar, mas uma mão acabou lavando a outra", declarou.
Para Dias, grupo está "fechado" com ele


O atacante Zé Roberto 'puxou a fila' de saída de jogadores - ERICK PINHEIRO / ARQUIVO JCS (7/5/2018) O atacante Zé Roberto 'puxou a fila' de saída de jogadores - ERICK PINHEIRO / ARQUIVO JCS (7/5/2018)


Em grupos da torcida beneditina, uma das principais especulações para a fase ruim na Série B -- com cinco partidas sem vitórias, sendo quatro derrotas -- é de que o grupo de jogadores estaria "rachado" com o presidente depois de terem presenciado a situação do pós-jogo contra o Londrina e a subsequente saída de Paulo Roberto Santos. "Tenho ouvido muitas insinuações sobre "corpo mole", debandada de atletas por causa da demissão do Paulo, mas nós estamos "fechados". Eu posso dizer que depois de tudo que aconteceu, o vestiário me recebeu calorosamente, dizendo que estavam "fechados" comigo", afirmou Márcio Rogério Dias.

O presidente atribui a fase ruim na competição, sobretudo, à saída de atletas e também às lesões. Para a Série B, foram trazidos 14 reforços. Três deles, porém, já deixaram o clube: os atacantes Zé Roberto e Walterson, que seguiram, respectivamente, para o futebol coreano e português; e o meia Rodolfo, para o futebol árabe. Além disso, o atacante Everaldo, outro nome muito importante para o Azulão, está deixando o clube para jogar no Fluminense (confira abaixo).

E, para aumentar a lista de desfalques, principalmente do setor ofensivo, o meia-atacante Lucas Crispim aguarda julgamento da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD). O nome dele constou numa lista divulgada pela entidade em 25 de junho, em que era informada a suspensão temporária do jovem, de 24 anos -- o flagrante ocorreu em coleta feita em 26 de novembro de 2017, após uma partida entre Flamengo e Santos (ex-clube do atleta), válida pelo Campeonato Brasileiro. Na ocasião, estava presente no corpo dele a substância fenoterol, usada em medicamentos para asma, doença pela qual Crispim é acometido desde criança.

Não bastassem os cinco jogadores citados, o departamento médico do clube tem mais quatro atletas sem condições de atuar: o volante Pedro Augusto rompeu os ligamentos do tornozelo esquerdo; o meia Daniel sofre de estresse no quadril; o lateral-direito Éverton Silva tem uma hérnia de disco; e o atacante Franklin quebrou a mão direita durante um treinamento nesta semana.
Time terá mais saídas e chegadas de atletas

Embora alguns atletas estejam deixando o São Bento por chamar a atenção pelo bom rendimento na Série B, outros devem sair do clube numa lista de dispensa. Até agora, três nomes não divulgados oficialmente são tratados como saídas certas pela diretoria. "Só não podemos falar, ainda, até assinar tudo. Até por questão de respeito", explicou o presidente.

Devido às baixas no elenco, que chegou a contar com 41 jogadores em determinado momento da temporada, Márcio Rogério Dias reconhece que terá de ir ao mercado. "O Marquinhos (Santos) já adiantou que gostaria de cinco opções, para cinco posições. Até o fim de semana, pelo menos dois nomes devem chegar."

Além das contratações para dentro de campo, o Azulão decidiu investir fora dele. Compactuando com a importância dada pelo novo técnico ao aspecto mental -- evidenciada na fala dele durante a apresentação no clube --, a psicóloga Alessandra Dutra, do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), chega para auxiliar o elenco nesse sentido. Mestre em psicologia social e com atuação em psicologia do esporte e alta performance, ela começou a prestar serviços na véspera da derrota para a Ponte Preta. Alessandra é a responsável pela preparação de vários atletas e equipes olímpicas nas últimas três edições dos Jogos Olímpicos, Pan-Americanos, Mundiais e Campeonatos Sul-Americanos.