CULTURA

"Fofinho, lindo, charmoso" e ainda por cima imorrível



Andrea Alves
andrea.alves@jcruzeiro.com.br
Impossível ter uma entrevista dentro dos padrões de normalidade quando se tem alguém do outro lado da linha dizendo seu nome no diminutivo com ar de velhos conhecidos e que ainda é capaz de brincar, sem cerimônia alguma: "vá para o show que você vai querer largar tudo pra ficar comigo porque aqui é tudo fofinho, lindo e charmoso". A repórter pergunta se a simpática Jô Abade, sua produtora e esposa, não é ciumenta e ele ainda arranja explicação - "ela comeu o ciúme com farinha e pimenta". Como contrariar a natureza se ele mesmo conta que nasceu assim, bem humorado, e que pretende seguir desse jeito até os últimos dias de sua vida, despachando pra longe dele quem tiver mau humor? Um "cara" que seu autodeclara Di Melo, o Imorrível, com a história que tem, nem precisa de permissão para ser assim. Um dos precursores do soul e do funk no Brasil, Di Melo gravou um antológico disco homônimo lançado pela EMI Odeon em 1975. Álbum esse que durante todos esses 37 anos não passou despercebido. As canções desse trabalho são tocadas no mundo todo e foram eternizadas nas interpretações de grandes músicos, como Heraldo Dumonte (violas e violões), Hermeto Pascoal (flautas e teclados), Cláudio Beltrame (contrabaixo) e José Briamonte (arranjos). "Ressuscitado" para a mídia com o lançamento de um documentário "Di Melo -O Imorrível", o cantor dá as caras hoje em Sorocaba. O filme, que foi exibido no Festival Palma de Ouro e já ganhou 8 prêmios (o curta ganhou de Melhor Montagem no Festival de Gramado) será exibido hoje, às 19h30, na Grande Otelo e logo na sequência o artista mostra seu swing e malemolência num show que ele promete ser interativo.
Para quem é muito atento aos detalhes, gosta de uma batida e acompanha os vídeos clips, o disco é aquele de fundo preto com a foto do cantor em tons laranjas que aparece no final do clipe de uma das banda mais famosas da atualidade: Black Eyed Peas. No clip da música "Don"t Stop The Party", a turma do vocalista Will.i.am presta uma homenagem ao Brasil. Foi aqui mesmo que o clipe foi gravado, dando destaque para vários ícones da cultura brasileira. E entre eles pinta o famoso disco do soul brasileiro. Faixas do disco foram sampleadas por DJs do mundo todo e o álbum foi reeditado nas tiragens de comemoração dos cem anos da EMI-Odeon, produzidas por Charles Gavin. Faixas do disco aparecem também em coletâneas internacionais como Blue Note in a Latin Groove e Blue Note Trip: Sunset-Sunrise CD 1 (ambos Blue Note), Soul of Brazil: Soul, Funk and Bossa Grooves (EMI) e Samba Soul 70 (Crammed). Além disso, o nome de Di Melo sempre figurou ao lado de outros nomes reconhecidos como grandes representantes do balanço brasileiro como Tim Maia, Ed Mota e Jorge Ben.
"72 horas por segundo"
Ouvindo o álbum de 1975 a sensação é de surpresa. Será que quando o compôs Di Melo tinha noção da qualidade musical e quão avançada para a época ela era? "Sincero? Sempre fiz boa música, pensando em palavra por palavra e olha que hoje estou mais exigente. Esse disco (o Di Melo) eu fiz em oito dias, quando estava no Japão. O sol cresceu raiando na minha frente e pronto", disse. "Kilariô", gritou no telefone cantando trechos dessa canção que tem versos como "Raiou o dia, eu vi chover em minha horta / Ai, ai, meu Deus do céu, quanto eu sofri / Ao ver a natureza morta."
Depois desse trabalho, Di Melo entrou em recesso, em parte por estar descontente com a indústria fonográfica da época. O cantor cheio de energia continuou na ativa, saindo apenas da visibilidade da mídia, voltando para sua terra natal (aquela em que artistas parecem brotar nas árvores), Pernambuco. "Tem cidadão que é praieiro. Eu sou maieiro, do mar. Voltei pra Pernambuco. Também fiquei uns 12 anos cantando numa cantina, a Camorra, em São Paulo. Fazia tarantela com pique de samba. Aquilo era uma loucura, tinha até palhaços e ficava lotado 72 horas por segundo." Também andou "por aí" acompanhado de ninguém menos que Geraldo Vandré, com quem compôs 12 músicas, agora guardadas a sete chaves e que ele pretende "agregar, domesticar" e transformar em livro e CD, por Pernambuco e por São Paulo, tentando apoio com as mesmas instituições que permitiram a realização do documentário Di Melo - O Imorrível (Undarpe e Funcultura, do governo do estado de Pernambuco). "Será um livro de odes, poesias, canções também", comenta emendando um recital, com sua voz poderosa empostada, de uma bela poesia chamada "A mini-crônica da mulher instrumental". Sim, ele também é poeta. Ele mesmo diz que gosta e vive todo tipo de arte como a pintura, a escultura, e está sempre a ouvir e ver tudo o tempo todo - parando apenas quando vai criar e recriar para não ter as ideias atrapalhadas.
Imorrível? De onde vem isso?
Foi ele mesmo que se declarou assim quando chegou aos seus ouvidos que o motivo do seu sumiço era sua morte. "Há uma protuberância na história. As pessoas diziam que eu tinha morrido num acidente de moto. E eu disse que não. E mais, sou imorrível." E ainda acrescenta: "sumi para algumas pessoas. Mas existem coisas para as quais não há tempo, não há vento". De tão vivo, gravou um depoimento para o documentário que conta sua própria história. Lançado em 2010, dirigido por Alan Oliveira e Rubens Pássaro, o filme traz ainda depoimentos do Titãs Charles Gavin, de Simoninha, Max de Castro, Léo Maia, entre outros. Ele marca a retomada da carreira do cantor que funde funk, MPB, soul e ritmos nordestinos para a mídia.
Di Melo tem ao todo 10 discos gravados, o último deles, o "32 de Fevereiro", tem composições suas com Jair Rodrigues, Wando e Waldonis. Ainda coleciona composições inéditas -mais de 400 diz ele - e promete que logo vai revelar uma surpresa: uma música composta com Emicida e chamada "Diuturno". Modesto, o cantor diz que está "pegando o pique" novamente e que a resposta do público - jovens de todas as idades, ele ressalta -tem dado um bom "gás" nessa readaptação à correria de shows Brasil afora. O importante é que continua fazendo tudo motivado por um simples detalhe. "O que torna um trabalho bom e diferente é o prazer que você dedica a ele. Sempre fiz tudo por prazer."
Acompanhado de Igor Brasil (guitarra), Daniel Coelho (baixo), Pedro Prado (bateria e percussão), Marcelo Valezi (sax e flautas) e Natan Oliveira (trompete), Di Melo promete tocar hoje "A vida em seus métodos diz calma" e outras tantas de sua discografia. Termina a entrevista dizendo que "a vida é una, tudo é tempo prazado, tudo acontece com uma razão de ser". Di Melo passa o telefone para sua esposa, que ao ouvir a pergunta "quem é capaz de parar esse homem?", apenas ri e diz que essa personalidade nem um pouco linear é assim o tempo todo. Ela volta o telefone para o cantor, que entre outras gracinhas termina a entrevista - curiosa para os colegas que da repórter ouviam apenas os risos -acrescentando: "feliz tudo o tempo todo pra você. Te amo, Andreinha." O imorrível é impossível. E inesquecível também.

Serviço

Documentário "Di Melo - O Imorrível"
Hoje, às 19h30
Show com Di Melo
Hoje, às 20h
Oficina Cultural Grande Otelo
Praça Frei Barauna, s/nº, Centro
Entrada franca
Retirar convite uma hora antes do início da apresentação