A morada do samba caipira
Texto: Mauricio Sérgio Dias (Maurício Toco)
Fotos: Adriano Ávila
Longas pastagens, pequeno centro urbano, igreja na praça central, quermesse. Moças e rapazes andando em volta da praça após a missa, ensejando algumas paqueras, tendo a festa do padroeiro como ponto central. A impressão que se tem ao chegar à cidade de Quadra/SP (166 km a oeste da capital; 85 km a oeste de Sorocaba) é de ser arremetido rumo a um passado, esquecido por boa parte dos urbanos paulistas. Por mais que se acredite que boa parte do mundo esteja integrada pela comunicação em tempo real, um município de pouco mais de três mil habitantes - que tem na produção rural sua base econômica - ainda tem o privilégio de guardar algumas relíquias que a velocidade do "progresso" ainda não apagou.
Dentre suas tradicionais relíquias está o samba caipira. Originário da fusão das antigos costumes das comunidades negras da região com a cultura caipira já secular, o samba produzido ali é totalmente diverso da matriz carioca e baiana. A entrevista que tivemos com o legítimo grupo de sambeiros quadrenses nos mostrou toda a riqueza de uma manifestação genuína da cultura paulista, que ainda sobrevive. É um pouco dessa conversa que se verá nesta reportagem.
Os Filhos de Quadra
“O meu pai cantava samba
Sambeiro o seu filho é
Eu trouxe herança dos meus pais
Eu sei que o samba não cai
Enquanto eu tiver de pé”
João de Ditão
“É muito antigo o samba daqui. Bisavô meu trabalhava em senzala, vendo os escravos. O patrão deixava eles se divertirem e meu bisavô cantava com eles no fim de semana, participava da batucada. Isso foi por volta de 1850. Meu bisavô passou isso para o meu avô, que passou pro meu pai...”. Assim narrou João José de Andrade, 70, vulgo João de Ditão, como todo mundo ali o conhece, explicando a sua linhagem de sambeiro: “Meu pai, meu avô e bisavô todos eram sambeiros...”. Filho de Benedito Desidério de Andrade, o Ditão Desidério, obedeceu a vocação patrilinear e se tornou também um legítimo compositor do samba caipira.
Forma com o seu cunhado Francisco Soares, 72, vulgo Preto, José Carlos Sores, 54, conhecido como Zé do Abel, e com o Francisco Domingos de Arruda Campos, 53, o Chicão, o grupo Os Filhos de Quadra. Gente de boa prosa e bem humorada, sabem que são praticamente os últimos representantes do estilo na redondeza, que já teve dezenas de sambeiros (como se autodenominam). “Tinha turma de samba em Guareí, Porangaba e de vários bairros: Varzeão, Matão, Areia Branca. Eram muitos e desapareceram”, contou Preto, não sem certa melancolia.
Versos Dobrados
"Onde eu vou me apresentar
Meus versinhos eu invento
Eu levo o nome da Quadra
Nos lugares que eu me apresento
Assim é João de Ditão
Faz muitos versos pra cantá
Eu tenho dinheiro no bolso
E no coração amor pra dá"
João de Ditão
A arte de compor em verso improvisado integra alguns estilos da música caipira. O cururu e o samba caipira, cada um a seu modo, têm o improviso verbal como parte de sua essência.
"O samba de antes se fazia batendo na caixa, mas era repicado. Qualquer verso que vinha dava certo. Agora o do João não dá. Cada currimaço de verso é uma toada. Vai pra outro currimaço, já é outra toada", fala Preto de seu parceiro, a quem considera como um irmão. Até onde entendemos, toada corresponde a um conjunto melódico, e currimaço é uma denominação para estrofe ou conjunto de versos. Ao que parece, João tem como estilo inserir mais um quinto verso na estrofe de quatro, como no caso: "Eu moro naquela serra/ Que é um azul enfumaçada/ Ai lá moro desde a infância/ Moro no bairro Estância / Perto da Vila da Quadra"
"O jeito do João tocar é diferente dos anteriores. São versos dobrados." O depoimento de Preto é muito claro: João de Ditão moderniza a forma de fazer versos no samba caipira de Quadra. Esta afirmação demonstra que uma manifestação de cultura caipira, tão atacada por certos eruditos, pode conter questões formais estruturalmente complexas, com agravante de serem feitas e discutidas de modo consciente por quem as faz. É, o caipira sabe discutir forma, sim sinhô.
Feito à mão
"Essa é minha casa veia
Toda ela é feita à mão
Ai, esse couro é de cabrito
O arco e o cambito
Já foi árvore do sertão"
João de Ditão
Tão antigo quanto a própria tradição do samba caipira de Quadra é o jeito de fazer os instrumentos, vindos desde a época dos escravos. Chicão, jornalista e bom de história do samba (tem até um livro pronto sobre o samba de Quadra), dá uma aula para nós: "Foi mantida a tradição no jeito de se usar os instrumentos. Por volta de 1870, escravo não tinha dinheiro pra usar viola, nem de adquirir qualquer outro tipo de instrumentos".
O modo de confecção era todo artesanal: "eles fabricavam então seus próprios pandeiros, a caixa, o reque-reque de bambu e o sambão. Pegavam os couros dos bichos que os patrões matavam e faziam os instrumentos".
O sambão - o pandeiro maior - é muito antigo: "esse sambão tem uns setenta anos. Pra afinar, acende uma fogueira e esquenta o coro no calor. As caixas eram amarradas com cipó ou imbira. O de João Mário, de Pirapora, também usa esse tambor", finaliza Chicão. João de Ditão, sambeiro nato e tocador de caixa, arrematou na hora a fala do parceiro: "Não posso ser um passarinho/ Nem peixe eu não posso ser/ Eu nasci pra ser sambeiro/ Pra cantar e caixa bater".
Os bailes nos palizadões
"Quando eu vim lá de São Paulo
Eu deixei meu rastro na areia
O baile é como quizé
O nosso samba não arreia"
Ditão Desidério
Nos bailes dos sítios o samba caipira encontrou seu lugar. Preto conta bem essa história: "os sambas que a gente ia tocar eram nos sítios. Num deles cantou uns 15 ou 20 cantadô. Iam revezando de duas em duas horas. As festas no geral começavam umas 8 da noite e não tinham hora pra acabar. Chegou algumas a terminar depois do almoço do outro dia! A gente fazia o que fosse pra ir a uma boa cantoria! E muita gente dançava! Conforme o lugar que você ia cantar, dava uns 40 pares dançando na sala!".
O Chicão fala dos palizados, que eram os salões em que o bailado acontecia: "Os tocadores iam na frente e o pessoal ia dançando atrás, em forma de roda, num salãozão ao ar livre que se chamava palizado. Eram umas coberturas com lona ou vassoureira que fosse, e a gente se reunia e fazia essa espécie de cantoria".
Geralmente os bailes aconteciam depois de um mutirão (ou muchirão, como Preto se refere): "o muchirão acontecia quando um lá tinha um pasto pra roçar e ele arrumava a turma do bairro pra fazer o serviço. Quando era de noite reunia a cambada. Tinha almoço, pinga dos alambique, matava umas galinha, uns porquinho... À noite tinha uns bolinho de arroz e trigo, fritinho", conta Preto. De dar água na boca!
Juventude transviada
"Os forrós e as baladas
Tem valor pra juventude
Pra mim o maior valor
É a amizade e a saúde"
João de Ditão
Infelizmente, muita coisa mudou nos dias atuais. Os vários grupos de samba desapareceram. O pessoal já não dança mais. A juventude não se interessa.
Chicão fala com tristeza do futuro do samba caipira: "Os mais novos não se interessam mais pelo samba. O João já tentou ensinar uns 50. Nenhum deles foi pra frente. Vem um dia, dois, três, mas depois some e você num pega mais. A molecada vai atrás de modismo. É o que acontece com o samba caipira: o pessoal tem vergonha. A gente ensaia aqui e nunca aparece um pra assistir. Lá de vez em quando aparecia um iluminado que dizia: "deixa eu escutar um samba", mas raramente aparece. Nem os mais velhos!".
Se os mais novos ainda não querem o samba, João não desanima e ataca a linguagem virtual:
"Inventaram o celular
Foi um invento muito bão
Só pra poder viver ligado
A cidade e o sertão
Agora já inventaram
DVD, fita K7
Pra gente namorá de longe
Que inventaram a internet"
Admirável seu João e todos os Filhos de Quadra. Longe de acabar, é uma gente com muito chão pra correr, muito couro pra bater e muito osso pra chacoalhar. É o samba caipira muito vivo. Pois como diria Paulinho da Viola: "Há muito tempo eu escuto esse papo furado/ Dizendo que o samba acabou/ Só se foi quando o dia clareou".
Maurício Sérgio Dias (Maurício Toco) é mestre em História pela Unesp/Assis, pesquisador, escritor, aprendiz de viola caipira e violonista.
Adriano Ávila é fotógrafo e já realizou exposições em diversas cidades brasileiras, além de outros países como China, Estados Unidos, Austrália e Holanda. Fez colaborações para grandes revistas como National Geographic.
Mais informações sobre o grupo Os Filhos de Quadra podem ser obtidas com Francisco Campos, o Chicão, pelo telefone (15) 99716-8590 ou o e-mail jornalcidadedequadra @yahoo.com.