CULTURA

Marcelo Silveira inaugura a exposição 'Com texto' no Macs


Personagens decisivos em todos os avanços civilizatórios da história, a memória e o diálogo são protagonistas na exposição "Com texto", do artista plástico pernambucano Marcelo Silveira, que será aberta neste sábado, às 10h, no Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (Macs).
 
A mostra reúne a instalação "Censor", composta por 20 cartazes originais de filmes censurados no Brasil pela ditadura militar, sobrepostas por várias camadas de placas de acrílico translúcidas em tons magenta que ora escondem, ora evidenciam partes de seu teor. 

O espaço expositivo também acomoda a audioinstalação inédita intitulada "Tudo certo", resultado de uma residência artística desenvolvida em Belo Jardim, cidade do interior pernambucano. O trabalho sonoro consiste na reprodução ininterrupta de um disco de vinil com gravação de dezenas de vozes de membros do coral daquela cidade ditando, em diferentes timbres e entonações, a expressão "tudo certo".

A frase escolhida pelo artista era pronunciada repetidamente por seu pai, acometido pelo Mal de Alzheimer, nos últimos oito anos de sua vida. "Estava tudo instável em casa e ele, como um disco arranhado, ficava repetindo: "tudo certo", "tudo certo"... Interessante é que é uma expressão que, muitas vezes não quer dizer o que diz, mas usada para encerrar um discurso".

Esta é a primeira vez que o artista consegue expor o toca-discos em uma galeria de arte. Embora tenha sido exatamente esta a ideia original na residência artística, Silveira precisou adequar o suporte, já que não houve tempo hábil de providenciar a prensagem do vinil. Em Belo Jardim, a intervenção foi feita por meio de quatro carros de som que circulavam pela cidade.

Produzidos em diferentes momentos e circunstâncias, ambas as obras, segundo o artista, têm em comum o resgate da memória (coletiva e pessoal) e do diálogo -- ou da sua eventual impossibilidade. "Além da memória, que é um tema recorrente em meus trabalhos, o que liga essas duas obras expostas aqui é o discurso interrompido. A política suscita do diálogo, do respeito pelo exercício de escuta e de fala. Para que exista diálogo é necessário um pacto. Sem ele, o que existe é o impacto", afirma Marcelo Silveira ao Mais Cruzeiro.


Placas de acrílico em tons magenta ora escondem, ora evidenciam partes dos cartazes - DIVULGAÇÃO Placas de acrílico em tons magenta ora escondem, ora evidenciam partes dos cartazes - DIVULGAÇÃO


Em Sorocaba desde a última quarta-feira (4), o artista fez questão de acompanhar os últimos detalhes da montagem da exposição, que ocupa o espaço expositivo principal do Macs. Hoje, das 14h às 18h, Silveira vai ministrar a oficina "Prática contínuo", na qual os participantes serão convidados a conhecer e contribuir com a intervenção "Projeto Revista", que consiste em sobreposição de colagens de imagens publicadas em uma revista editada pelo próprio artista em 2009. A atividade é voltada a artistas profissionais, professores e estudantes de artes visuais. As vagas são limitadas e para participar é necessário se inscrever pelo e-mail: [email protected].

Produzida em 2015, enquanto alguns grupos saíram às ruas para pedir intervenção militar e antes da exposição "Queermuseu", de Porto Alegre (RS), ter sido fechada após receber críticas de movimentos de direita, a instalação "Censor" é uma obra motivada por uma realidade existente no período da repressão política no Brasil (1964-1985), mas que possibilita reflexões acerca da realidade atual do país.

A instalação, que já foi exposta no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), em Recife, e no Museu da Imagem e do Som (MIS), é definida pelo artista como uma "mostra fictícia de cinema, que nunca aconteceu", composta por cartazes de filmes censurados pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) durante a ditadura militar no Brasil. Após a decretação do Ato Institucional Número 5 (AI-5), em 1968, estima-se que cerca de 500 filmes tenham sido censuradas no país.


Em "Censor", Silveira evoca o legado de um regime político autoritário para lembrar o público dos perigos das políticas repressoras que permitem a censura e ações confiscatórias contra artistas e agentes culturais. A aplicação de camadas de acrílico sobre os cartazes, segundo o artista, também é uma espécie de censura na medida em que, arbitrariamente, define o que pode ou não ser visto pelo público. "A ideia também é pensar a nossa própria atitude como censor. Toda vez que a gente recorta algo que a gente gosta ou concorda, quantas outras não são silenciadas", indaga o artista, deixando em aberto todas as interpretações possíveis de suas obras. Sem censura.

A exposição "Com texto" fica em cartaz até 12 de maio e pode ser vista de terça a sexta, das 10h às 17h e aos sábados e feriados, das 10h às 15h. O Macs fica na Avenida Afonso Vergueiro, 280, ao lado da antiga Estação Ferroviária.